Max Planck: o cientista que perdeu tudo e não parou
Existe uma pergunta que a física nunca conseguiu responder: quanto sofrimento cabe dentro de uma vida antes que ela pare de funcionar?
Max Planck perdeu a esposa, os quatro filhos do primeiro casamento, a casa onde vivera quarenta anos, os manuscritos de toda uma carreira e o país em que acreditava. Ele não atravessou nada disso intacto. Não venceu o luto, não encontrou uma fórmula para suportá-lo, não se tornou mais forte. Max Planck quebrou.
O extraordinário não é que tenha permanecido de pé. É que, mesmo quebrado, continuou aparecendo para trabalhar.
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A sala de música de Grunewald
Antes das perdas, houve uma sala. No bairro berlinense de Grunewald, a casa dos Planck enchia-se regularmente de cientistas, professores, músicos e estudantes. Max sentava-se ao piano. Seu filho Erwin tocava violoncelo. Em algumas noites, Albert Einstein aparecia com o violino.
O homem sério dos retratos oficiais regia corais, organizava saraus e subia montanhas. Segundo a própria Max-Planck-Gesellschaft, era junto da família que ele se sentia "completamente humano e à vontade". Lise Meitner guardaria a lembrança de vê-lo brincar de pega-pega com estudantes e crianças, com um entusiasmo que ninguém suspeitaria do presidente da ciência alemã.
Vale guardar essa sala na memória. Quase tudo o que vem a seguir consiste em esvaziá-la.
"Não estude física"
Planck nasceu em Kiel, em 23 de abril de 1858, numa linhagem prussiana de juristas, professores e teólogos — uma família onde dever, disciplina e serviço não eram ornamentos retóricos, mas um modo de viver.
Na juventude, seu talento mais evidente não era a ciência: era a música. Tocava piano e órgão, cantava, e chegou a considerar seriamente a carreira musical. Escolheu a física pela mesma razão pela qual outro escolheria a filosofia ou a teologia — queria encontrar alguma ordem permanente por trás de um mundo que não parava de mudar.
Em Munique, em 1874, aos 16 anos, procurou o professor Philipp von Jolly para pedir conselho. A resposta entrou para a história: não estudasse física, porque quase tudo naquele campo já havia sido descoberto; restavam apenas alguns buracos a preencher. Planck respondeu que não pretendia descobrir nada novo — queria apenas compreender os fundamentos do que já existia.
Dentro de um daqueles "buracos a preencher" estava escondida toda a física do século XX.

Max Planck em 1878 — via Wikimedia Commons
O caminho até lá não teve nada de glorioso. Depois do doutorado, Planck passou cerca de cinco anos como docente sem salário regular, morando com os pais em Munique e sentindo culpa por depender deles. Um homem adulto, altamente instruído, construindo carreira numa área que seu próprio professor declarara encerrada. Só em 1885 conseguiu uma posição em Kiel; só em 1887, com alguma estabilidade, casou-se com Marie Merck.
Tiveram quatro filhos: Karl, o primogênito, em 1888; as gêmeas Emma e Grete, em 1889; e Erwin, o caçula, em 1893.
O ato de desespero
O problema que passou a consumi-lo tinha um nome estranho: radiação do corpo negro — a luz emitida por objetos aquecidos. Parecia simples, e não era. Duas fórmulas disputavam o fenômeno, e cada uma acertava só metade do universo. A lei de Wien, orgulho da física alemã, descrevia bem os comprimentos de onda curtos e falhava no infravermelho. A lei de Rayleigh funcionava justamente no infravermelho, mas, conforme a frequência subia, previa energia infinita: pelo cálculo, qualquer objeto aquecido deveria incinerar o universo.
A virada veio num domingo. Em 7 de outubro de 1900, o colega Heinrich Rubens foi tomar chá em Grunewald e contou que suas medições em ondas muito longas não batiam com a fórmula alemã. Naquela noite, depois que a visita saiu, Planck sentou-se à escrivaninha e escreveu uma equação que costurava as duas metades quebradas. Enviou o resultado a Rubens num cartão-postal.
Funcionou. Batia com todos os dados, em todas as cores, perfeitamente. Só que Planck não fazia ideia do porquê.
Levou dois meses para descobrir. Em 14 de dezembro de 1900, diante da Sociedade Alemã de Física, apresentou uma explicação que contrariava tudo aquilo em que acreditava: a energia não é emitida de forma contínua, mas em pacotes mínimos e indivisíveis. Quanta. Para descrevê-los, introduziu uma constante representada por uma letra minúscula: h.
Anos depois, numa carta a Robert W. Wood, chamaria aquela decisão de "um ato de desespero" — não porque soubesse estar inaugurando uma revolução, mas porque não encontrara outro jeito de fazer o cálculo coincidir com a realidade.

Retrato de Max Planck — via Wikimedia Commons
E aqui está a primeira grande ironia da sua vida. Max Planck não era revolucionário. Gostava do que já havia sido testado, confiava na tradição, desconfiava de rupturas. Passou anos tentando limitar, reinterpretar e até eliminar as consequências da própria descoberta. Não conseguiu. O homem que queria preservar a física antiga abriu a porta pela qual ela seria destruída.
Em 1905, um funcionário desconhecido de um escritório de patentes suíço levou os quanta muito mais longe do que Planck desejava. Planck poderia tê-lo tratado como ameaça; em vez disso, reconheceu seu talento, defendeu seu trabalho e ajudou a trazê-lo para Berlim. Cientificamente discordavam em questões profundas. Pessoalmente, tocavam juntos: Planck ao piano, Einstein no violino, Erwin no violoncelo.
1909: a primeira cadeira vazia
Em 1909, depois de 22 anos de casamento, Marie morreu — provavelmente de tuberculose. Durante meses a casa conviveu com a tosse, as febres e a esperança de que o ar de algum sanatório pudesse salvá-la. Não salvou.
Não há registro de colapso público. Nenhuma cena. Planck fez o que aprendera a fazer desde a infância: organizou o dia seguinte. Voltou aos horários, às aulas, ao trabalho. Isso não significa que sentisse menos — significa que a disciplina era a única linguagem de sobrevivência que ele conhecia.
Dois anos depois casou-se com Marga von Hößlin, sobrinha de Marie, com quem teve o filho Hermann. Não apagou a família anterior nem substituiu quem havia perdido: construiu algo ao redor das ausências. Por alguns anos, a estrutura pareceu suficiente.
Verdun, e depois as gêmeas
Em 1914, Planck assinou com outros intelectuais alemães o Manifesto dos 93, em defesa do próprio país — posição da qual mais tarde se afastaria. Como milhões de europeus, confundiu patriotismo, dever e verdade. A guerra não foi só algo que aconteceu com sua família; foi também algo em que ele acreditou. Isso torna o que veio depois consideravelmente mais difícil.
Karl, o primogênito, foi enviado ao front ocidental e morreu perto de Verdun, em 1916. Planck tinha 58 anos. Não houve pausa institucional para que um pai compreendesse o que havia acontecido: havia aulas, reuniões, correspondência, decisões. No dia seguinte à tragédia, o mundo continuava exigindo que ele funcionasse.
Em 1917, Grete morreu durante o parto da primeira filha. A bebê sobreviveu. Emma, sua gêmea, casou-se então com o viúvo da irmã e passou a criar a menina — uma tentativa de reconstruir uma família dentro do que restara da anterior. Em 1919, Emma engravidou. E morreu no parto, exatamente como a irmã. Sua filha também sobreviveu.
As duas gêmeas morreram da mesma forma, com dois anos de diferença, deixando duas meninas que cresceriam sem mãe.
Foi nesse intervalo que chegou o reconhecimento máximo da carreira: o Nobel de Física de 1918, entregue no ano seguinte. Não houve um momento limpo em que o sofrimento terminou e a celebração começou. Cartas de homenagem chegavam enquanto a família organizava lutos.
Costumam chamar isso de resiliência. Mas a palavra engana: sugere uma força sobre-humana, alguém que absorve perdas sem ser modificado por elas. Não era isso. Planck trabalhava porque o trabalho lhe dizia o que fazer durante as horas em que ele não sabia como continuar sendo pai.
O patriarca e o tirano
Em 1933, Hitler chegou ao poder. Cientistas judeus foram expulsos, livros foram queimados, e antigos colegas como Philipp Lenard e Johannes Stark passaram a atacar a chamada "física judaica". Einstein deixou a Alemanha e nunca mais voltou.
Planck tinha 75 anos e era presidente da Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft. Poderia ter partido. Escolheu ficar.

Max Planck em 1933 — via Wikimedia Commons
Durante décadas essa escolha foi contada de duas maneiras. Para uns, ficou para proteger cientistas e preservar instituições. Para outros, permaneceu porque era conservador demais para compreender a natureza do regime. As duas coisas são provavelmente verdadeiras. Ele tentou ajudar pessoas ameaçadas, tentou manter institutos funcionando, tentou impedir que a ciência alemã fosse inteiramente capturada. Mas também acreditou, por tempo demais, que o Estado ainda obedeceria a algum limite. O homem que confiava em estruturas demorou a perceber que a estrutura inteira havia sido tomada.
Planck relatou, anos depois, ter se encontrado pessoalmente com Hitler em 1933 para argumentar que expulsar cientistas judeus destruiria a ciência alemã. Segundo seu relato — e é dele que vem a única versão da cena, motivo pelo qual historiadores debatem os detalhes —, Hitler respondeu com uma explosão de fúria. Não houve discussão nem argumento. Apenas gritos.
O homem que passara a vida acreditando que a razão revela as leis da natureza descobriu que a razão não tem autoridade sobre todos os homens.
A carta
Em fevereiro de 1944, um bombardeio aliado destruiu a casa de Grunewald. Com ela desapareceram a biblioteca, os cadernos, os diários e a correspondência de uma vida inteira. A sala onde Planck tocara piano com Einstein e Erwin deixou de existir. Aos 85 anos, ele não perdeu apenas uma casa: perdeu os objetos que ligavam sua velhice às pessoas que já haviam morrido.
Em 20 de julho de 1944, a bomba da Operação Valquíria explodiu e Hitler sobreviveu. A vingança do regime prendeu milhares. Entre eles, Erwin Planck — secretário de Estado, próximo ao governo, o último filho de Marie, o homem que falava com o pai praticamente todos os dias e que, décadas antes, tocara violoncelo naquela sala agora destruída.
Em 25 de outubro de 1944, Max Planck sentou-se para escrever um apelo pessoal de clemência a Adolf Hitler. Tinha 86 anos. Era Nobel de Física. Invocou sua idade, seus serviços prestados ao país, sua contribuição para a ciência alemã.
Um homem que passara a vida tentando descobrir as regras do universo procurava agora descobrir quais palavras poderiam salvar o próprio filho. Não havia equação. Não havia experimento. Não havia segunda tentativa. Apenas um pai pedindo misericórdia a alguém que não a possuía.

Erwin Planck — via Wikimedia Commons
O pedido foi ignorado. Em 23 de janeiro de 1945, na prisão de Plötzensee, em Berlim, Erwin Planck foi enforcado.
Pessoas próximas afirmaram depois que a vontade de viver de Max Planck havia sido destruída. E talvez seja essa a parte que precisa ser dita sem eufemismo: ele não atravessou tudo intacto, não venceu o sofrimento, não descobriu uma fórmula para suportá-lo. Ele quebrou. E ainda assim a vida continuou exigindo coisas dele.
🎬 No vídeo, esta cena — o pai de 86 anos escrevendo ao ditador — ganha imagem e trilha. Assista no ponto exato: https://youtu.be/iNHkK4ju5C4
O velho na estrada
Nos últimos meses da guerra, Planck e Marga estavam em Rogätz, perto do Elba. Com o avanço dos combates, tiveram de fugir. Aos 87 anos, com fortes dores artríticas e dificuldade para caminhar, ele atravessou florestas, celeiros e abrigos improvisados, acolhido por uma família de produtores rurais que vivia em condições extremamente simples.
O Nobel, o professor, o presidente e o criador do quantum havia se tornado apenas mais um idoso deslocado por uma guerra, dependente da comida e da boa vontade de desconhecidos.
Em 16 de maio de 1945, o astrônomo Gerard Kuiper — então ligado à missão Alsos — chegou a Rogätz num jipe militar com soldados americanos e levou o casal para Göttingen.
A guerra havia terminado. A casa não existia mais. Erwin estava morto. A organização científica que ele presidira estava comprometida por sua relação com o regime. Planck poderia ter desaparecido da vida pública, e ninguém chamaria isso de covardia.
Em vez disso, assumiu de novo, interinamente, a presidência da Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft, que em 1948 seria refundada com o seu nome. Em 1946, debilitado e com quase 90 anos, foi o único cientista alemão convidado pela Royal Society às celebrações do tricentenário de Newton, em Londres. Continuou trabalhando não como um homem invulnerável, mas como um homem ferido que ainda acreditava ter uma responsabilidade.
Morreu em Göttingen, em 4 de outubro de 1947, aos 89 anos.
O que sobrou
O nome de Max Planck está escondido em praticamente toda a física moderna. A constante h aparece na descrição dos átomos, da luz, dos semicondutores — e da tela em que você lê este texto. Desde 2019, até o quilograma é definido a partir dela. A Max-Planck-Gesellschaft, criada depois da guerra, reúne hoje alguns dos institutos de pesquisa mais importantes do mundo.
Mas o legado mais humano de Planck não está numa constante. Está na contradição da sua vida. Acreditava em ordem e viveu no caos. Acreditava em instituições e viu instituições servirem a uma ditadura. Acreditava na razão e precisou implorar a um homem que não podia ser convencido. Criou uma revolução que não desejava. E passou os últimos anos reconstruindo um mundo ao qual já não pertencia inteiramente.
Ele escreveu, na autobiografia, que uma nova verdade científica raramente triunfa convencendo seus adversários: ela avança quando uma nova geração cresce familiarizada com ela. A ideia acabou popularizada de forma mais brutal — a ciência avança um funeral de cada vez. A vida de Planck mostra algo mais incômodo: os funerais deixam de ser metáfora quando pertencem à sua própria família. E nenhuma descoberta, prêmio ou posição protege alguém do momento em que é preciso voltar para casa e encontrar uma cadeira vazia.
Talvez essa seja a resposta à pergunta do começo. Quanto um homem aguenta perder antes de quebrar? Não existe uma quantidade. E continuar não significa não ter quebrado.
Max Planck continuou depois de quebrar. Não porque fosse mais forte que os outros, nem porque compreendesse o sofrimento — mas porque, a vida inteira, aprendeu a fazer uma coisa quando não sabia o que fazer: cumprir o próximo dever. Dar a próxima aula. Responder à próxima carta. Tocar a próxima nota. E tentar chegar ao dia seguinte.
▶️ Assista à história completa
Este artigo nasceu do episódio sobre Max Planck no canal Zigurat — documentários que abrem os arquivos de personalidades que a história transformou em estátua, à procura do ser humano preso lá dentro. O vídeo traz esta história com reconstituições, trilha original e a atmosfera que o texto não alcança: https://youtu.be/iNHkK4ju5C4
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Perguntas frequentes
Quem foi Max Planck?
Físico alemão (1858-1947), fundador da teoria quântica. Em 14 de dezembro de 1900 props que a energia é emitida em pacotes indivisíveis — os quanta —, introduzindo a constante h. Recebeu o Nobel de Física de 1918 e presidiu a Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft, hoje Max-Planck-Gesellschaft.
Quantos filhos Max Planck perdeu?
Os quatro do primeiro casamento, com Marie Merck. Karl morreu em combate perto de Verdun (1916); Grete morreu de parto em 1917; Emma, sua irmã gêmea, morreu de parto em 1919; e Erwin foi executado pelo regime nazista em janeiro de 1945. Marie havia morrido em 1909.
Por que Erwin Planck foi executado?
Por envolvimento no atentado de 20 de julho de 1944 contra Hitler. Foi condenado à morte pelo Volksgerichtshof e enforcado na prisão de Plötzensee, em Berlim, em 23 de janeiro de 1945 — apesar do apelo pessoal de clemência que seu pai escreveu a Hitler em outubro de 1944.
O que é a constante de Planck?
A constante h relaciona a energia de um quantum de radiação à sua frequência. É uma das constantes fundamentais da natureza, presente em toda a física moderna, e desde 2019 serve de base para a definição do quilograma no Sistema Internacional.
Fontes e referências
- 01 Max-Planck-Gesellschaft — "Max Planck's private life" e visão biográfica geral
- 02 The Nobel Prize — biografia oficial de Max Planck, Nobel de Física de 1918
- 03 Gedenkstätte Deutscher Widerstand (GDW Berlin) — biografia de Erwin Planck
- 04 Joint Quantum Institute — "Planck and the birth of quantum mechanics"
- 05 Royal Society — nota memorial sobre Max Planck (1948)
- 06 Scientific American — o resgate de Max Planck por Gerard Kuiper em maio de 1945

