Henrietta Lacks: a mulher que a ciência usou e não nomeou
Se você tomou a vacina contra a poliomielite, se conhece alguém tratado com quimioterapia moderna, se já ouviu falar da vacina contra o HPV, você foi tocado pelo trabalho involuntário de uma mulher que morreu em 1951, aos 31 anos, numa ala de caridade de Baltimore.
As células dela continuam vivas. Dividem-se, neste momento, em laboratórios de todos os continentes — estima-se que já sejam muito mais numerosas do que todas as células que um dia formaram seu próprio corpo. Elas foram ao espaço, entraram em reatores nucleares, ajudaram a decifrar o HIV e renderam prêmios Nobel.
Ela foi enterrada numa cova sem lápide. Por mais de vinte anos, a imprensa e a própria comunidade científica repetiram que a doadora daquelas células milagrosas se chamava "Helen Lane". Nem o nome dela contaram direito.
O nome era Henrietta Lacks.
▶️ Prefere assistir? Esta história está em vídeo-documentário completo, com imagens e trilha original, no canal Zigurat: https://youtu.be/FfIs7sXirrE
Loretta Pleasant, de Roanoke
Ela nasceu Loretta Pleasant em 1º de agosto de 1920, em Roanoke, Virgínia, filha de Johnny Pleasant e Eliza Lacks Pleasant. Cresceria sob o peso da pobreza rural do sul dos Estados Unidos, num país regido pelas leis segregacionistas de Jim Crow. Ainda criança, passou a ser chamada por um apelido que se tornaria eterno: Henrietta.
Por volta de 1924, quando ela tinha quatro anos, a mãe morreu ao dar à luz o décimo filho. Incapaz de criar sozinho uma família tão numerosa, Johnny levou as crianças de volta a Clover e as distribuiu entre parentes. Henrietta foi para a casa do avô, Tommy Lacks — uma velha cabana de toras que outrora servira de alojamento para pessoas escravizadas na fazenda da família.
Foi ali, na "casa-mãe" de Lackstown, que ela cresceu colhendo tabaco ao lado de dezenas de primos, acordando antes do amanhecer para o trabalho no campo. A escola, quando havia tempo, era precária e segregada. Henrietta abandonaria os estudos na sexta série.
Entre os primos daquela casa estava David "Day" Lacks, cinco anos mais velho, com quem ela dividiria o resto da vida. Lawrence nasceu em 1935, quando ela tinha catorze anos. Elsie nasceu em 1939 — uma menina com epilepsia e atraso no desenvolvimento, que anos mais tarde seria internada numa instituição estadual segregada.
Guarde o nome dela. Esta história tem mais de uma vítima.

Marco histórico de Henrietta Lacks, Clover, Virgínia — via Wikimedia Commons
Baltimore
Em 10 de abril de 1941, Henrietta e Day oficializaram a união que a vida já lhes impusera. No mesmo período, um primo, Fred Garret, trouxe notícias de Baltimore: a Bethlehem Steel, em plena expansão para atender à indústria bélica da Segunda Guerra, contratava em sua usina de Sparrows Point.
Day partiu primeiro. Henrietta o seguiu com os filhos, tornando-se parte da Grande Migração — o movimento que levaria milhões de famílias negras do sul rural aos centros industriais do norte. Instalaram-se em Turner Station, bairro operário e majoritariamente negro nos arredores de Baltimore.
A família cresceu: depois de Lawrence e Elsie vieram David Junior, Deborah e, por fim, Joseph, nascido em 19 de setembro de 1950. Ainda grávida desse quinto filho, Henrietta já sentia algo estranho — um "nó" no ventre, como descreveria às primas. Os médicos que a examinaram no parto e, semanas depois, numa consulta de rotina, nada encontraram.
29 de janeiro de 1951
No início de janeiro, Henrietta começou a sangrar fora do período menstrual. Guardou o desconforto quase só para si, como era seu costume. Em 29 de janeiro, foi ao Hospital Johns Hopkins — o único grande centro médico da região que mantinha uma ala de caridade para atender pacientes negros.
Foi examinada pelo ginecologista Howard Jones, que se deparou com algo que nunca vira: uma lesão de um roxo brilhante e incomum sobre o colo do útero. A biópsia seguiu para análise e, poucos dias depois, Jones telefonou com o resultado — carcinoma epidermoide maligno do colo do útero.
Henrietta não contou a quase ninguém. Voltou sozinha ao hospital, disse à família que era "só um tratamento", e assinou o formulário de admissão que autorizava os médicos a realizar qualquer procedimento operatório que julgassem necessário. Uma autorização genérica, comum à época, que nada mencionava sobre pesquisa científica ou coleta de tecidos.
Em 8 de fevereiro de 1951, durante a aplicação dos tubos de rádio da primeira sessão de radioterapia, o cirurgião Lawrence Wharton Jr. retirou duas pequenas amostras de tecido — uma do tumor, outra da região sadia ao redor. Sem o conhecimento dela. Sem o consentimento dela.
Não foi um ato isolado de má-fé. Era prática rotineira: pacientes das alas de caridade de hospitais de ensino frequentemente tinham seus tecidos usados em pesquisa sem jamais serem informados. É exatamente esse o ponto — o que aconteceu com Henrietta Lacks era o normal, e o normal era isso.
As amostras seguiram, ainda naquela manhã, para o laboratório do doutor George Otto Gey, no mesmo corredor.
O impossível, num tubo com plasma de galinha
Havia anos Gey e sua assistente, Mary Kubicek, tentavam cultivar uma linhagem de células humanas capaz de sobreviver indefinidamente fora do corpo. Todas as amostras anteriores murchavam e morriam em poucos dias.
As células de Henrietta, cultivadas em tubos com plasma de galinha e soro sanguíneo, fizeram o que nenhuma outra fizera: dobraram de número a cada vinte e quatro horas, numa multiplicação vertiginosa que jamais havia sido observada. Batizaram a linhagem de "HeLa", com as duas primeiras letras do nome e do sobrenome da paciente — uma convenção do laboratório pensada, ironicamente, para preservar o anonimato da origem.

Células HeLa coradas com Hoechst 33258 — via Wikimedia Commons
E aqui mora o segredo que a ciência levaria décadas para decifrar. As células de Henrietta não eram imortais por acaso.
O tumor que a matava fora causado por um vírus — o papilomavírus humano, o HPV — que, combinado a uma alteração celular rara, reativara uma enzima chamada telomerase: o mecanismo que impede a célula de envelhecer. Cada célula daquele tumor havia perdido a capacidade de morrer.
A mesma doença que consumia o corpo dela tornava as suas células eternas.
4 de outubro de 1951
Enquanto as células se multiplicavam nos tubos de ensaio, o corpo de Henrietta piorava depressa. A radioterapia provocou queimaduras severas, e o câncer se espalhou com uma agressividade que intrigava os próprios médicos. Em 8 de agosto de 1951 ela foi internada de novo no Johns Hopkins, dessa vez para não mais sair.
Henrietta Lacks morreu em 4 de outubro de 1951, aos 31 anos. A autópsia revelou metástases em praticamente todos os órgãos.
Foi sepultada numa cova sem identificação no cemitério da família, em Lackstown, perto de Clover — o mesmo pedaço de terra onde crescera colhendo tabaco. Por quase sessenta anos nenhuma lápide marcaria o lugar. Um túmulo apropriado só seria erguido em 2010, depois que sua história se tornasse conhecida do mundo.
Elsie
E a família ainda não havia terminado de perder.
Quatro anos depois, em 1955, Elsie — a segunda filha, internada desde criança na instituição segregada de Crownsville — morreu sozinha, aos quinze anos. Décadas mais tarde, quando a família finalmente teve acesso aos registros, descobriu que a instituição realizava procedimentos experimentais em pacientes, sem consentimento.
A menina que a mãe visitava toda semana, enquanto teve vida para isso, não teve quem a visitasse no fim.
A história das células de Henrietta costuma esquecer que ela deixou, também, essa outra história.
🎬 No vídeo, esta parte — o que a família descobriu sobre Crownsville — ganha imagem e trilha. Assista no ponto exato: https://youtu.be/FfIs7sXirrE
O mundo que devia tudo a ela e a chamava de Helen Lane
Gey nunca patenteou as células HeLa. Ao contrário: passou a distribuí-las gratuitamente a laboratórios do mundo inteiro, em pequenos tubos enviados pelo correio. Era a primeira linhagem de células humanas imortalizada em cultura, e sua disponibilidade em larga escala mudou o rumo da medicina.
Já em 1952 e 1953, as HeLa foram produzidas em massa para testar a vacina contra a poliomielite de Jonas Salk — o primeiro grande triunfo de sua utilidade científica. E a fábrica que as produzia aos bilhões ficava no Instituto Tuskegee, no Alabama: a mesma instituição cujo nome ficaria para sempre associado ao infame estudo da sífilis em homens negros, mantidos sem tratamento e sem saber. No mesmo endereço, os dois lados da medicina americana — as células de uma mulher negra salvando o mundo, e corpos negros usados sem consentimento.
Nas décadas seguintes, as HeLa ajudariam a fundar a citogenética moderna, a estudar os efeitos da radiação e da ausência de gravidade, a compreender vírus como o HIV e o papilomavírus humano, e a desenvolver técnicas de fertilização in vitro.
Houve ainda uma ironia final, das que só a ciência escreve. Em 1984, o virologista alemão Harald zur Hausen encontrou, nas próprias células HeLa, o material genético do HPV-18 — a prova que ligava o vírus ao câncer de colo de útero. A descoberta lhe renderia o Nobel e abriria caminho para a vacina contra o HPV.
A doença que matou Henrietta Lacks é hoje prevenível. Em parte, graças às células da própria Henrietta.

Células HeLa vivas em imagem de fluorescência multicolorida — via Wikimedia Commons
Enquanto isso, o mundo que devia tudo a ela não sabia o seu nome. Por mais de vinte anos, a imprensa e a própria comunidade científica repetiram que a doadora se chamava "Helen Lane". Nome errado, história apagada.
Em 1966 veio o escândalo que os cientistas chamariam de "a bomba HeLa": o geneticista Stanley Gartler provou que as células de Henrietta, robustas demais, haviam invadido e contaminado dezenas de outras linhagens celulares em laboratórios do mundo inteiro. Anos de pesquisas feitas, sem que ninguém soubesse, sobre células dela. Imortais até demais.
A família, no entanto, nada sabia sobre o destino daquelas células. Só em 1973, quando pesquisadores procuraram os filhos para coletar amostras de sangue — oficialmente para mapear a genética da família e identificar a contaminação, na prática sem jamais explicar de verdade o motivo —, é que os Lacks começaram a suspeitar de algo maior.
A dívida
A revelação pública veio em 1976, com uma reportagem de Michael Rogers na revista Rolling Stone, e ganhou fôlego em 1997 com um documentário da BBC. Mas foi em 2010, com A Vida Imortal de Henrietta Lacks, da jornalista científica Rebecca Skloot, que a história alcançou repercussão mundial.
O livro expôs não apenas a contribuição científica daquelas células, mas o silêncio, a ausência de consentimento e a falta de qualquer compensação à família que, décadas depois, ainda tinha dificuldade para pagar plano de saúde — enquanto as células de sua mãe estavam em incontáveis laboratórios e tratamentos ao redor do planeta.
É justo registrar uma nuance: o Johns Hopkins afirma nunca ter vendido nem lucrado com as HeLa, que Gey distribuía de graça. O lucro veio depois, da indústria de biotecnologia que cresceu sobre elas.
Em 2013, o genoma completo das HeLa foi publicado sem autorização da família, reacendendo o debate sobre privacidade genética. O caso levou o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos a firmar um acordo inédito, dando aos descendentes um papel formal na análise de pedidos de acesso àqueles dados. Em 2017, a HBO levou a história às telas num filme estrelado por Oprah Winfrey.
E então vieram os capítulos que enfim começaram a pagar a dívida.
Em outubro de 2021, a Organização Mundial da Saúde concedeu a Henrietta um prêmio póstumo, recebido em Genebra por Lawrence, seu filho mais velho, então com 87 anos — o menino de Lackstown diante do mundo, em nome da mãe.
No mesmo mês, em 4 de outubro — setenta anos, dia a dia, depois da sua morte —, uma estátua de bronze da artista Helen Wilson-Roe foi inaugurada nos jardins da Universidade de Bristol, na Inglaterra. É considerada a primeira estátua pública de uma mulher negra criada por uma artista negra no Reino Unido. A inscrição é dedicada a todas as mulheres negras não reconhecidas que contribuíram para a humanidade.

Estátua de Henrietta Lacks, de Helen Wilson-Roe, Universidade de Bristol — via Wikimedia Commons
E em 1º de agosto de 2023 — no dia em que Henrietta completaria 103 anos — a família fechou um acordo com a gigante de biotecnologia Thermo Fisher Scientific, encerrando o processo por lucro sem consentimento. Os termos são confidenciais. Mas, pela primeira vez em setenta anos, a palavra final foi da família Lacks.
O que fica
Setenta anos depois de sua morte, as células de uma jovem mãe negra, colhedora de tabaco na Virgínia rural, continuam a se dividir em laboratórios de todos os continentes. Vacinas, tratamentos contra o câncer, avanços na genética e na biologia espacial: quase toda pessoa viva hoje já foi tocada, de alguma forma, pelo legado silencioso e involuntário de Henrietta Lacks.
O que a história dela deixou não é uma curiosidade científica. É uma pergunta que a medicina levou setenta anos para começar a responder: de quem é o corpo, depois que ele entra num hospital?
Henrietta Lacks nunca soube que suas células viveriam para sempre. Nunca lhe perguntaram.
▶️ Assista à história completa
Este artigo nasceu do episódio sobre Henrietta Lacks no canal Zigurat — documentários que abrem os arquivos de vidas que a história preferiu contar pela metade. O vídeo traz esta história com reconstituições, trilha original e a atmosfera que o texto não alcança: https://youtu.be/FfIs7sXirrE
Se essa história te prendeu, inscreva-se no canal — e explore outros episódios da série no blog.
Perguntas frequentes
Quem foi Henrietta Lacks?
Uma mulher negra americana (1920-1951), mãe de cinco filhos, que morreu aos 31 anos de câncer de colo de útero no Hospital Johns Hopkins. Durante o tratamento, amostras do seu tumor foram retiradas sem seu conhecimento e deram origem às HeLa, a primeira linhagem de células humanas capaz de se multiplicar indefinidamente em laboratório.
O que são as células HeLa?
A primeira linhagem celular humana imortalizada em cultura, obtida do tumor de Henrietta Lacks em 1951. Diferentemente de células comuns, elas se dividem indefinidamente, o que as tornou a ferramenta de pesquisa mais usada da biologia — da vacina da pólio ao estudo do HIV e do HPV.
Por que as células de Henrietta Lacks eram imortais?
O tumor foi causado pelo HPV, que, combinado a uma alteração celular rara, reativou a telomerase — a enzima que impede a célula de envelhecer. As células perderam a capacidade de morrer. Foi nas próprias HeLa que Harald zur Hausen identificou o HPV-18, descoberta que lhe rendeu o Nobel e abriu caminho para a vacina.
A família de Henrietta Lacks recebeu alguma compensação?
Por décadas, nenhuma. O Johns Hopkins afirma nunca ter vendido nem lucrado com as células. Em 2013 a família passou a ter voz formal sobre o acesso aos dados genômicos das HeLa, e em 1º de agosto de 2023 fechou um acordo de termos confidenciais com a Thermo Fisher Scientific — o primeiro desfecho concreto da luta por compensação.
Fontes e referências
- 01 Rebecca Skloot, *A Vida Imortal de Henrietta Lacks* (2010)
- 02 Johns Hopkins Medicine — The Legacy of Henrietta Lacks
- 03 Organização Mundial da Saúde — prêmio póstumo a Henrietta Lacks (outubro de 2021)
- 04 Universidade de Bristol — inauguração da estátua de Helen Wilson-Roe (4 de outubro de 2021)
- 05 Michael Rogers, *Rolling Stone* (1976) — a primeira reportagem sobre a família Lacks
- 06 Cobertura de imprensa do acordo entre a família Lacks e a Thermo Fisher Scientific (agosto de 2023)
